Fiquei com os olhos colados nele e.. entrou-me na pele, que arrepiou.
Apeteceu-me continuá-lo. Mas não.
Há reticências que é melhor manter! Têm de se manter...

'Vi-te hoje na Versailles. Estavas sentada diante de uma chávena de café, com o olhar distante de quem procura ontens no dia de amanhã. Inerte, como se tivesses parado naquela posição desde o dia em que te vi pela última vez, há quase 20 anos. Entre as mãos tinhas um cigarro apagado, em posição de desafio, mas no teu olhar já não existia a expressão lutadora de outros tempos.
Aproximei-me.
O cigarro começou a rolar entre os teus dedos, como se num momento eu tivesse accionado um interruptor que te trouxe de volta à vida.
Sorri.
Devolveste-me um sorriso apagado e estendeste a face para que te beijasse.
Obedeci.
Arrastaste enfim a voz num esforço perceptível. Há quanto tempo!
Sim, há quanto tempo...
Perguntei por ti.
Respondeste-me em palavras enroladas nos sedativos que te mantêm agarrada à vida.
Perguntei por ele.
Deixaste o olhar fugir na procura de uma resposta que te escapou por entre os dedos, no momento em que deixaste cair o cigarro apagado sobre a mesa.
Mudei de assunto.
Tocaste-me na mão ao de leve e pediste para me sentar.
Obedeci, como nos tempos em que éramos apenas um. Passaste-me os dedos pela face como que a querer fazer-me a barba com as costas da mão.
Continuas charmoso.
Silêncio...
Bom, tenho de ir embora.
Pois, tiveste sempre de partir...
Dei-te um beijo de despedida.
Agarraste a minha mão num quase pedido de socorro.
Desprendi-me e levantei-me. Da porta lancei-te um último aceno.
O cigarro voltara a bailar entre os teus dedos, como a substituir a mão que eu te negara.
Saí. Respirei fundo. Que teria sido de mim se não me tivesse libertado de ti?
No cérebro soaram fortes os acordes.« Je vais et je viens, entre tes reins »
E tu :« Tu es la vague, moi l’île nue»
E eu outra vez:«L’amour physique est sans issue»'
- Carlos Barbosa de Oliveira -
- Carlos Barbosa de Oliveira -
11 comentários:
Pois é: quem não se revir ali ~tem de confessar que não viveu!
Beijos
Puxa, mas que "murro" no estômago...
Magnífico texto!
O texto é excepcional... parabéns ao Carlos e obrigado à Lúcia pela partilha.
Sensações de nostalgia, que chegam ao mesmo tempo que o frio. Ao amor eterno, alimentá-lo e faze-lo durar, mas às vezes é assim, uma recordação, naturalmente. Gostei muito do texto.
Vou já cumprimentar o Carlos por este excelente texto:))
Lúcia
Amigos (as) é um grande texto do Carlos BO. Todo ele. Cheio de vida(s).
'Estavas sentada diante de uma chávena de café, com o olhar distante de quem procura ontens no dia de amanhã'
Só isto... é...tanto!
Fiquei contente por teres gostado, ao ponto de o reproduzires aqui.
Só um esclarecimento:
Como o Rochedo fez dois anos no dia 4 de Setembro, tenho estado a repostar textos antigos, para os leitores que não tiveram oportunidade de os ler na altura.
Amanhã republicarei o último, mas a partir do próximo fim de seman irei republicar sempre um.
Carlos
O prazer foi todo meu e, pelos vistos, nosso... dos que te leram qesta pérola.
Um beijinho
pois...
nunca sabemos responder ao que foi o ex-futuro...
bjs Lúcia
Luís
... e continua a povoar o nosso imaginário, esse ex-futuro.
Linda a tua frase!
Beijinhos
Este texto é lindíssimo! Parabéns ao Carlos B. O.. Tenho de visitar mais o seu "Rochedo" para ler mais obras de artes como estas palavras, impregnadas de sentimentos incertos, de dilemas angustiantes de outros rumos hipotéticos da vida!
Bjs.
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