Ano e e picos depois da compra, a criança decide levar a boneca para a escolinha.
Logo que sai do carro aparecem duas funcionárias. Antes que a criança tivesse tempo de apresentar a boneca, foi como se a boneca se apresentasse: "Olá; então a tua boneca é preta?". E a criança olha para a boneca e para as pessoas para ter a certeza de que estavam a falar da Titi. E lá responde: "É a Titi".
Entra na escolinha, e mais duas funcionárias em coro: "Olha, tens uma boneca preta?" E a criança: "É a Titi. É a minha boneca". E assistiu a um gozo generalizado à boneca, entre comentários que ela estava queimadinha; deveria ter saído do forno....
Noutro corredor, duas mães (e apareciam sempre aos pares): "Olá - tens uma boneca toda gira - é preta" . Aí, a criança, que já deu conta que alguma coisa de estranho se passa com a Titi desde que saiu do carro, lá foi dizendo: "É a Titi e não é preta. É castanha". A mãe ia assistindo a estas reacções, à estupefacção da criança e à vergonha que a própria Titi devia sentir naquele momento, sem nada dizer. Porque já nem a mãe se lembrava que a boneca era preta. E porque não lhe passou pela cabeça que estas conversas fossem possíveis, ainda para mais ali. Mãe, criança e Titi surpreendidas!
A criança entra na sua sala e logo ouve a educadora: "Olá - tens uma boneca toda gira. É preta". A criança, aqui, mostrou a sua impaciência e disse, já zangada: "Não é preta. É a Titi e é castanha". E a resposta desconcertante: "Sim, mas é castanha escura". A criança ficou a olhar para a boneca uns instantes, como que a descobrir o que até aí não tinha visto, porque nunca foi importante. Despediu-se da mãe, que também já estava a tentar apressar a saída.
À tarde, quando a mãe foi buscar a criança ouviu-a dizer da boneca : "Ó mamã, a Titi é castanha escura".
Moral: A Titi é preta, castanha, castanha escura para muita gente. Para nós era só mais uma boneca. A criança ficou a saber que a Titi é "diferente" (seja lá isso o que for). E é este tipo de sabedoria que dispensávamos que ela tivesse. (escrito em 2008. Republicado quando S. precisou de ouvir esta história.)
porque hoje o dia é do Nuno, ilustre colaborador deste blogue e, acima de tudo, TUDO de há muitos anos para cá, ... um livro que me marcou, que marcou o Nuno - O Barão Trepador de Italo Calvino, sobre o qual o Nuno escreveu isto:
Manhã cedo. Chuva. Muita. Porto. VCI. Chuva. Olho para os carros vizinhos, mas não se vislumbra um olhar, um cabelo desalinhado, uma expressão de impaciência perante o pára arranca. Ou um sorriso. Nada. Todos os outros vidros estão embaciados. Menos o meu. Não gosto de nadar no meio da névoa.
Demoro uma hora a fazer um percurso de trinta e cinco minutos. Até estou com pressa, hoje. Deixo-me andar. Três acidentes pelo caminho. Um carro avariado numa das faixas do meio da A 44. Um jovem coloca-se, corajosamente entre o carro dele e os que estão a ir na sua direcção. Guarda chuva fechado, nos braços levantados, para indicar aos outros que há perigo e que devem mudar de faixa. Todo molhado, com o carro avariado, no meio de uma auto-estrada movimentada com 4 faixas de rodagem, sujeito a levar uma trombada de algum que não trave a tempo… calculo que o Inferno, para ele, foi ali, naquela manhã.
Na rádio discorre-se: o péssimo momento do meu Sporting, o segredo de justiça, que quase nunca o é; a petição pela liberdade de expressão que parece que não existe daí ter-se feito uma petição e esteja marcada uma manifestação em frente da Assembleia da República porque não há liberdade de expressão e então o melhor é ir para a rua reclamar o pior é que ninguém deixa mas vamos na mesma… nada sobre o aumento do spread por parte dos bancos; nada sobre uma estratégia para atrair investimento; nada sobre soluções para contornar a situação de casais que estão com a corda na garganta… nada sobre caminhos novos… aliás, nada sobre o que verdadeiramente interessa. Só folclore. A nossa classe política não nos dá outra coisa. Os nossos jornalistas também não.
Manhã cedo. Chuva. Intensa. VCI. Os vidros desembaciados tornam o dia mais claro. E a música que me dá boleia…:-)
I’m Yours
‘Look into your heart and you'll find love love love
Listen to the music of the moment come 'n dance with me…’
Horas mais tarde, o mail chove poesia… ouve-se aquela voz quente pelo telemóvel e o almoço, afinal adiado, com um grande amigo fica como a sombra de uma manhã… bonita. Apesar da chuva… ou por causa da chuva!
O palhaço é também o jornalista que se põe em bicos de pés. O jornalista que acha que as notícias são um espectáculo (ou devem ser), porque no fundo são só palhaçadas. O palhaço que é jornalista faz palhaçadas com as notícias e se lhe dizem que não deve fazer palhaçadas chama os outros de palhaços. E diz que esses outros palhaços não deixam que os palhaços do contra se exprimam, e manda-os calar. E diz que esses palhaços não deixam que haja contraditório. Mas depois vemos esse palhaço, esses palhaços, que são jornalistas, a dizer e a fazer palhaçadas à vontade por todo o lado. Decididamente, este país tem palhaços a mais, e os piores palhaços são aqueles que acham que só os outros é que são palhaços.
Não vejo na televisão (embora seja verdade que veja pouca) a tão falada “falta de contraditório”. Temos sempre várias opiniões vindas de vários quadrantes políticos. Temos problemas graves no país e temos várias análises sobre isso. Mas os “jornalistas palhaços” acham que o importante é dar show, deitar abaixo sem apresentar, no fundo, notícias, e fazer do jornalismo um espectáculo político. (Foi o caso deste texto.) Ou melhor, em vez de falarmos e de nos centrarmos nos verdadeiros problemas do país, estamos todos perdidos nestes chiqueiros… Se calhar o governo até agradece… a oposição idem… Uma palhaçada!
Vi-te a trabalhar o dia inteiro construir as cidades pr'ós outros carregar pedras, desperdiçar muita força pra pouco dinheiro Vi-te a trabalhar o dia inteiro Muita força pra pouco dinheiro
Que força é essa que trazes nos braços que só te serve para obedecer que só te manda obedecer Que força é essa, amigo que te põe de bem com outros e de mal contigo Que força é essa, amigo
Não me digas que não me compr'endes quando os dias se tornam azedos não me digas que nunca sentiste uma força a crescer-te nos dedos e uma raiva a nascer-te nos dentes Não me digas que não me compr'endes
Que força é essa que trazes nos braços que só te serve para obedecer que só te manda obedecer Que força é essa, amigo que te põe de bem com outros e de mal contigo
Cuando la pena cae sobre mi el mundo dejaya de existir, miro hacia atras y busco entre mis recuerdos Para encontrar la niña que fui y algo de todo lo que perdi miro hacia atras y busco entre mis recuerdos Sueño con noches brillantes al borde de un mar de aguas claras y puras y un aire cubierto de azahar. Cada momento era especial dias sin prisas,tardes de paz, miro hacia atras y busco entre mis recuerdos. Yo quisiera volver a encontrar la pureza nostalgia de tanta inocencia que tampoco tiempo duro. Con el veneno sobre mi piel frente a las sombras de la pared miro hacia atras y busco entre mis recuerdos, vuelvo hacia atras y busco entre mis recuerdos.
Y si las lagrimas vuelven ellas me haran mas fuerte.
Ao Haiti, não bastava a pobreza; não bastava a prostituição infantil; não bastava haver todo um povo em constante luta, labuta e sofrimento. Ao Haiti chegou, de uma vez só, a devastação. Pais sem filhos; crianças orfãs; gente que geme, a esta hora... ainda...
Caros amigos, Umas breves palavras para vos dizer que a AMIparte amanhã para o Haiti, com uma equipa de dois elementos, que avaliará in loco as necessidades reais e as possibilidades que teremos de ajudar aquele povo. Custa-me, mais uma vez, constatar que a injustiça continua a ser grande e que catástrofes com dimensões idênticas por vezes têm consequência menores (basta que aconteçam em países ditos "avançados"), outras dizimam populações inteiras. Mas apraz-me perceber que cada vez mais os cidadãos do Mundo se unem, estão alerta, têm iniciativa e agem. Apercebo-me que, globalmente, a indiferença vai sendo combatida. Porque pobres ou menos pobres, todos sonhamos, porque todos somos seres humanos. A AMI lá estará, a partir de amanhã. A fazer o que puder, com o que tiver para dar.' ------------------- Em tempo: Como ajudar o Haiti? AQUI.
“O Café é o ouro do homem comum e, como o ouro, traz a todo homem o sentimento de luxúria e nobreza. Onde é servido, há graça e esplendor, amizade e alegria. Todas as preocupações desaparecem quando uma chávena de café é levada aos lábios.”Abd-al-Kadir
Seria capaz de reconhecer as minhas crias entre milhares, só pelo cheiro de cada uma.
Sei que os especialistas dizem muitas coisas sobre o cheiro dos filhos; sobre as reacções químicas que desencadeiam na mãe; sobre a vontade de os voltar a ter dentro do útero quando aquele cheiro nos entra no corpo.
Da maternidade, sei-lhe o cheiro. E a maciez da pele que nos impele um tal sentido de protecção e amor que sentimos que são nossos para sempre. São, sim. Mesmo que, a qualquer altura da vida, partam de nós…
Nós nunca, mas nunca, partimos deles. Não estaremos sempre com eles. Mas estaremos sempre neles. E é bom que os nossos filhos saibam disso, em qualquer altura das suas vidas.
Sei, meus queridos, que não sereis sempre felizes: que sofrereis… Não há como evitar as pedras no caminho. Tentamos, com o melhor que sabemos e sentimos, ensinar-vos a tirá-las. Com a menor dor possível e sem atingir os outros. Pauto a minha vida por valores maiores. Aos quais, e em alturas muito específicas da minha vida, não fui fiel, confesso. E se há gente neste mundo a quem tenho que pedir desculpa pelas minhas falhas, é a vocês. É, acima de tudo, aos vossos olhos que me julgo.
A esses olhos que ‘eu não vou parar de olhar’, como a S. me fez prometer um dia, ao ouvir uma música – ‘Mamã, tu nunca vais parar de me olhar?’.
Olho-vos em todos os espaços; invento-vos em todas as coisas.
E sim, minha querida – ‘vamos ficar juntos para sempre. Todos!’
Ainda que um dia vocês partam de mim; mas permanecerão. E eu em vós.
Espanha é a nova presidenta (como diria Pilar del Rio) da União Europeia.
Os objectivos são ambiciosos: ou serão ambiciosos porque são tão urgentes e difíceis, quanto necessários?
A recuperação económica será o objectivo mais visível. Mas, numa altura em que gerar emprego se tornou o balão de oxigénio perdido, deve notar-se a importância das relações externas. Se tivermos em conta que grande parte dos empregos perdidos resultaram de empresas que se deslocalizaram para outros mercados, nomeadamente asiáticos, torna-se necessário arranjar soluções engenhosas para atrair investimento. Criatividade precisa-se!
Mas porque é que houve deslocalização? Se olharmos para o nosso país, aos salários bases, os trabalhadores somavam as horas nocturnas e fins-de-semana. E ainda que ajeitando, assim, mais uns tostões na carteira, o que levavam para casa distava bem da soma de muitos outros trabalhadores em carreiras técnicas que cumprem 35 horas de trabalho semanal!
Em outros países, onde o salário base é maior, onde os Contratos Colectivos de Trabalho são fruto de reivindicações de mentalidades bem mais avançadas dos que as nossas, também se sofre com o desemprego e com a deslocalização de empresas.
Mas eis que se descobre que o mercado asiático é fértil: porque o custo fixo dos salários será muito mais baixo, aqui, do que no país pior remunerado do velho continente. Segurança no trabalho, horário estipulado por lei, direitos do trabalhador, em alguns destes países são inexistentes. As condições quem que muitas pessoas trabalham são deploráveis. A China é um triste e fértil exemplo. Os Recursos humanos (utilizar este termo neste contexto é um luxo), que por cá levam uma grande fatia do capital das empresas, são a um custo baixíssimo. Não porque em alguns desses países o custo de vida seja baixo, mas porque não existe qualquer direito fundamental assegurado.
Mas o mais interessante é que, muitas das empresas que se deslocalizaram, tinham, de há anos para cá, políticas de responsabilidade social. Muito bem! E agora? Agradecem o tratamento que estes governos dão com as unhas dos pés aos trabalhadores. Porque, ainda por cima, ninguém se mete com países como a China. Não dá! Não há Instituição europeia ou mundial que lhes ponha freio. Porquê? São poderosos. Porquê? O seu poderio militar é tudo menos de menosprezar.
Poucas notícias nos chegam de lá. Mas, de vez em quando, com mais frequência do que a desejada, mas menos do que o número de vezes em que acontece, chegam-nos notícias dos mineiros que trabalham nas minas chinesas. Uma tristeza!
E se procurarmos e estivermos atentos, vamos vendo como se trabalha na China em termos de produção fabril. E apetece perguntar o que Primo Levi perguntou, embora noutro contexto: ‘Se isto é um Homem…’
Mas o Ocidente, sábio, histórico, virtuoso, que assina essas cartas todas que garantem direitos fundamentais, que faz embargos aqui e além por questões, apenas, de consciência (claro), verga-se.
Diz-me o meu douto colaborador deste blogue que já não será tanto assim como digo: que as empresas ocidentais que para lá vão têm outros benefícios em termos fiscais. Irão, também, reivindicar mais condições até porque, um trabalhador satisfeito rende mais. É um começo. Mas…
'Com fé e confiança, irmãos, partimos a cantar...'
2010 será melhor! Se cada um de nós for melhor, mais forte e mais participativo! É preciso acreditar...
Está a criar-se um Banco de Leite Materno na Maternidade Alfredo da Costa.
Porque há mães com leite a mais e bebés sem ele (ou porque foram abandonados; ou porque as mães são portadoras de doenças impeditivas da amamentação, ou seja lá porquê).
Um dos grupos são os prematuros. Porque este assunto também me toca, acho uma iniciativa brilhante.
A respeito, lembrei-me da tragédia da Escola de Beslan, em 2004 - um dos ataques mais horripilentos de que tenho ouvido. Pelos dias de cativeiro de tantas crianças e pelas condições bárbaras do cativeiro... 341 mortos. Destes, 178 eram crianças.
De todas as histórias comoventes que se cruzaram e que foram contadas num Documentário completo (que não consegui ver na totalidade, pois houve relatos demasiado chocantes) feito por uma cadeia de televisão sobre este massacre, lembrei-me de uma em particular. Vou relatá-la, de memória e em síntese.
Uma mãe aguardava no lado de fora da escola, o final desta história. Quando, por fim, os sobreviventes começaram a fugir e a correr para fora, esta mãe, na confusão, "tropeça"num adolescente em estado de desideratação. Não hesitou em dar-lhe de mamar, embora envergonhada. Diz que foi acto imediato. E o adolescente agarrou-se ao peito como se agarrase a vida.
Esta pequena história não é feliz. Nem a senhora que deu de mamar a contou com qualquer ponta de orgulho. Mas com tristeza.... tanta....