quinta-feira, 19 de junho de 2008

O Grito...


...de José Régio por João Villaret

Cântico Negro




"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...


A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha Mãe.

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!



10 comentários:

Anónimo disse...

Conheci ambos os intervenientes deste seu "post" e só tenho um comentário: Pessoas fantásticas. Bom é saber que são lembrados. Parabéns pelo facto

Anónimo disse...

Olá. Lúcia, numa palavra: Sublime! E, por acaso, ainda hoje comentei que ía meter este poema no meu blog... :-) Um exemplo dos poucos poemas que considero verdadeiramente sublimes (como o "Tabacaria" do Álvaro de Campos / Imortal Fernado Pessoa)
Beijonn

Anónimo disse...

eu também gosto de andar em sentido contrário, Lúcia.

têm-se outro sentido das coisas...

abraço

(luis eme)

Anónimo disse...

Lobinho, lobinho:
Sempre na mesma onda!):
Beijonn

João Videira Santos:
Agora despertou-me o pecado capital da... inveja.
Abraço

Luís Eme
Eu, tu e mais uns quantos.... E ainda bem.
Abraço

Anónimo disse...

Excelente grito!!!!
Adoro este poema de José Régio...
Obrigada

Beijos

Anónimo disse...

Sim, também eu sei não vou por aí, porque não quero, nem posso ir, o meu sentir não sente que eu possa ir!

Anónimo disse...

Lúcia, que bom lembrares o "Cântico Negro"! há tanto tempo que não o lia, mas agora reparo que está, inteirinho, dentro da minha memória.
Beijo de obrigada

Anónimo disse...

Justine:
Óptimo. Estas partilhas são saudáveis.
Beijinho

Anónimo disse...

obrigada por partilhar esta dupla fantástica. que bom!...

um sorriso :)

Anónimo disse...

Ai, este "Cântico Negro" é do melhor que pode haver!! Em tempos sabia-o de cor, coisa que causava grande espanto e admiração entre as minhas colegas de liceu. Com o tempo alguns versos ficaram apagados, e foi tão bom relê-los aqui!

beijinhos e obrigada

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