quarta-feira, 25 de novembro de 2009

25 de Novembro - Dia Internacional Contra a Violência Contra as Mulheres



O gabinete era uma sala ampla. Em dia de sol, iluminava-se e os raios derramavam-se no chão ao som das sombras das árvores do jardim que ficava logo ao sair da porta traseira. Pela lateral, entravam os utentes.
Quando ela entrou, bastou o seu olhar assustado, o rosto pálido e o cabelo desgrenhado para que se fizesse mais sombra.
Pedi-lhe que se sentasse. Reparou que ficaria de costas para a porta traseira e não se sentou. Pediu-me para se sentar ao lado da mesa. Anuí. Não parava de olhar, constrangedoramente, para as portas, para a janela. Respondia nervosa, baixinho, como em confidência. Perguntei-lhe a morada – respondeu que não podia dizer. Expliquei que tinha que me dizer, porquê e que os dados eram confidenciais, só disponibilizados a entidades por ela autorizadas, nomeadamente para a inserção profissional. Perguntou-me se ninguém me tinha telefonado a falar dela. Respondi que não. Baixou os olhos.
D. A., não imagina as histórias de vida que me passam por aqui todos os dias. Nenhuma sai destas paredes. E não imagina quantas são semelhantes, apesar de quem as conta pensar que é única!’
Contou por palavras o que já tinha lido pelo olhar e pela aura desmanchada. Saiu, já acompanhada pela técnica da Instituição onde estava alojada há poucos dias que, entretanto, chegou.
Não tinham passado 15 minutos quando um homem, simples, bem parecido e simpático entrou na sala para, delicadamente, saber se a mulher tinha ali estado e se que tipo de resposta ou aconselhamento lhe havia sido dado; que estava preocupado com ela e até lhe conviria saber, caso eu a tivesse encaminhado para emprego, onde seria para poder conversar com alguém que lá trabalhasse – ‘enfim… fazer algumas recomendações, porque ela anda sensível e se não fosse eu a tomar conta dela…’

Já lá vão uns anos desde que o olhar da A. ficou cravado em mim.
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Sites a não perder, para que não se perca a noção de que existe; do que existe e de como podemos colaborar. Podemos?!
UMAR
APAV

6 comentários:

Patti disse...

Desde que é um crime público, eu pessoalmente já fiz três queixas contra vizinhos que batiam nas mulheres.
Estes crimes de cobardia, enojam-me.

Si disse...

Os retratos reais conseguem sempre ser mais cruéis do que os ficcionados.
E não é só a violência física, que para essa, pode haver solução. A psicológica é que não termina nem se cura nunca.
Obrigada por este texto, Lúcia.

Maria disse...

Contra as várias violências, ou vários tipos de violência, digo eu...
É terrível, Lúcia. E o pior é que muitas calam e não têm coragem de falar, porque acham normal.

Beijo.

Anónimo disse...

Esse olhar é sempre inconfundível...
E esses seres abjectos, que subjugam pela força, são normalmente a merda de uns covardes(desculpa a linguagem).
no Porto, em plena rua, um individuo batia numa mulher... e as pessoas passavam, indiferentes à tragédia. não me contive...saí de yokoguéri...
E aquele monte de lixo, ali deitado, nem esboçou um gesto!
peguei na pobre da senhora, perguntei-lhe se estava tudo bem, se precisava de guarida, se queria que a levasse ao hospital, se queria apresentar queixa... e só vi uma coisa no seu olhar: medo.
medo de mim, pela agressividade que apliquei naquele instante talvez, ou medo das consequencias...
foi à 20 anos. desde então, alguma coisa mudou, já não falta tudo.
ainda sinto aquela revolta, ainda sinto aquele olhar de medo....
abraço do vale

LuNAS. disse...

Patti
Viva essa coragem! Muitas vezes, há o suporte legal, mas não há o suporte mental. E é por isso que, muitas coisas continuam a acontecer...

Si
E a violência psicológica, mesmo que termine de facto, não se cura.
Ampara-se, mas a vida é toda ela redelineada à volta dos traumas.

Maria
Algums acham normal - tal vai a auto-estima. Outras não falam por medo, falta de alternativas, dependência social económica, afectiva... Às vezes é um círculo.
Beijinho

Duarte
Ai, bem dito golpe aplicado ao sujeito...
Foi há 20 anos?! Muitas coisas mudaram, sim. E a mulher conquistou um espaço muito importante. Mas, nos casos que existem, e são ainda muitos, esse olhar de medo... será uma constante. Haja gente deicida em dar uma lição a quem a merece1
Abraço da Serra

Nuno Bigotte S. disse...

Esperemos que essa gentalha toda vá sendo denunciada e metida no seu lugar. Aparte isso, parabéns pelo texto... está muito bem escrito! Leva-nos para o momento! Está realista e com uma descrição escorreita e bem feita.
Bjsnn.

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