O gabinete era uma sala ampla. Em dia de sol, iluminava-se e os raios derramavam-se no chão ao som das sombras das árvores do jardim que ficava logo ao sair da porta traseira. Pela lateral, entravam os utentes.
Quando ela entrou, bastou o seu olhar assustado, o rosto pálido e o cabelo desgrenhado para que se fizesse mais sombra.
Pedi-lhe que se sentasse. Reparou que ficaria de costas para a porta traseira e não se sentou. Pediu-me para se sentar ao lado da mesa. Anuí. Não parava de olhar, constrangedoramente, para as portas, para a janela. Respondia nervosa, baixinho, como em confidência. Perguntei-lhe a morada – respondeu que não podia dizer. Expliquei que tinha que me dizer, porquê e que os dados eram confidenciais, só disponibilizados a entidades por ela autorizadas, nomeadamente para a inserção profissional. Perguntou-me se ninguém me tinha telefonado a falar dela. Respondi que não. Baixou os olhos.
‘D. A., não imagina as histórias de vida que me passam por aqui todos os dias. Nenhuma sai destas paredes. E não imagina quantas são semelhantes, apesar de quem as conta pensar que é única!’
Contou por palavras o que já tinha lido pelo olhar e pela aura desmanchada. Saiu, já acompanhada pela técnica da Instituição onde estava alojada há poucos dias que, entretanto, chegou.
Não tinham passado 15 minutos quando um homem, simples, bem parecido e simpático entrou na sala para, delicadamente, saber se a mulher tinha ali estado e se que tipo de resposta ou aconselhamento lhe havia sido dado; que estava preocupado com ela e até lhe conviria saber, caso eu a tivesse encaminhado para emprego, onde seria para poder conversar com alguém que lá trabalhasse – ‘enfim… fazer algumas recomendações, porque ela anda sensível e se não fosse eu a tomar conta dela…’
Já lá vão uns anos desde que o olhar da A. ficou cravado em mim.
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Sites a não perder, para que não se perca a noção de que existe; do que existe e de como podemos colaborar. Podemos?!
UMAR
APAV
6 comentários:
Desde que é um crime público, eu pessoalmente já fiz três queixas contra vizinhos que batiam nas mulheres.
Estes crimes de cobardia, enojam-me.
Os retratos reais conseguem sempre ser mais cruéis do que os ficcionados.
E não é só a violência física, que para essa, pode haver solução. A psicológica é que não termina nem se cura nunca.
Obrigada por este texto, Lúcia.
Contra as várias violências, ou vários tipos de violência, digo eu...
É terrível, Lúcia. E o pior é que muitas calam e não têm coragem de falar, porque acham normal.
Beijo.
Esse olhar é sempre inconfundível...
E esses seres abjectos, que subjugam pela força, são normalmente a merda de uns covardes(desculpa a linguagem).
no Porto, em plena rua, um individuo batia numa mulher... e as pessoas passavam, indiferentes à tragédia. não me contive...saí de yokoguéri...
E aquele monte de lixo, ali deitado, nem esboçou um gesto!
peguei na pobre da senhora, perguntei-lhe se estava tudo bem, se precisava de guarida, se queria que a levasse ao hospital, se queria apresentar queixa... e só vi uma coisa no seu olhar: medo.
medo de mim, pela agressividade que apliquei naquele instante talvez, ou medo das consequencias...
foi à 20 anos. desde então, alguma coisa mudou, já não falta tudo.
ainda sinto aquela revolta, ainda sinto aquele olhar de medo....
abraço do vale
Patti
Viva essa coragem! Muitas vezes, há o suporte legal, mas não há o suporte mental. E é por isso que, muitas coisas continuam a acontecer...
Si
E a violência psicológica, mesmo que termine de facto, não se cura.
Ampara-se, mas a vida é toda ela redelineada à volta dos traumas.
Maria
Algums acham normal - tal vai a auto-estima. Outras não falam por medo, falta de alternativas, dependência social económica, afectiva... Às vezes é um círculo.
Beijinho
Duarte
Ai, bem dito golpe aplicado ao sujeito...
Foi há 20 anos?! Muitas coisas mudaram, sim. E a mulher conquistou um espaço muito importante. Mas, nos casos que existem, e são ainda muitos, esse olhar de medo... será uma constante. Haja gente deicida em dar uma lição a quem a merece1
Abraço da Serra
Esperemos que essa gentalha toda vá sendo denunciada e metida no seu lugar. Aparte isso, parabéns pelo texto... está muito bem escrito! Leva-nos para o momento! Está realista e com uma descrição escorreita e bem feita.
Bjsnn.
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