A vida coloca-nos muitas pessoas pelo caminho. Damos-lhes as mãos num determinado tempo e pensamos que será sempre assim. Mas não é. Quantos amigos tive, que ao meu lado vincaram presença durante meses e anos e, mais tarde, porque temos que nos desprender para seguirmos o nosso caminho, deixamos, até de os contactar?
Agora tudo está mais facilitado, à distância de um click. Mas fiz grandes amizades em outros tempos: nos tempos em que o e mail se começou a divulgar e utilizar mas ainda não estava vulgarizado; do tempo em que os telemóveis apareceram, mas não éramos todos que os tínhamos. Os que o utilizavam geravam sorrisos em quem só os usava de empréstimo. Lembro, até, de alguns colegas que ficavam atrapalhados quando ‘aquilo’ tocava na rua ou no café…
Há pouco tempo, em conversa casual com boa gente, lembrei-me de que ainda sou do tempo em que se escreviam cartas de amor! Assim mesmo, daquelas… enormes. Houve um tempo em que uma ‘separação académica’ por meses que pareceram anos, me aguçou a energia da escrita. Daqui para outro país seguiam as minhas cartas com os relatos quotidianos e palavras de saudade - claro ;) – mas também recortes de notícias de jornais, impressões e reflexões pessoais sobre acontecimentos sociais e políticos. E me parece que nunca enviei uma carta sem pagar uma sobretaxa do selo! Do outro lado, a mesma coisa. Em folhas e folhas. Por vezes, com agrafos. E dos recortes de jornais, ainda me lembro, até, de enviar a tabela classificativa do campeonato português de futebol! Os telefonemas que trocávamos eram marcados, antecipadamente, com hora e dia. E curtos, como convinha.
Ainda guardo as cartas; as enviadas e as recebidas!:) E apesar de me lembrar perfeitamente de as escrever, nunca dei, verdadeiramente, conta de que ainda sou do tempo em que se escreviam cartas de amor. E foi, apenas, há 11 anos!
Se fosse hoje, suspeito de que não gastaria um cêntimo nem em telefonemas nem em selos, nem sequer em papel. Bastava estar on line – no mail, no Skype, no MSN…
Ainda sou do tempo em que se escreviam cartas de amor em papel! ... E lembrar isso num Setembro calmo, quando a brisa fresca já nos vais beijando as faces, traz muitas recordações com cheiro a… arrumado. Nem é a alfazema. É mesmo a arrumado!Como quando, no final do Verão tiramos aquela camisola que nos vai cobrir os braços dos primeiros ventos frios e nos vem o cheiro outonal do regresso.
Mas… quando comecei a escrever, nem era isto que eu queria dizer. Era mesmo sobre os amigos. Esses que nos acompanharam, depois apartaram por falta de comunicação; e alguns temos a sorte de voltar a encontrar (devido, em grande medida a estas novas formas de comunicação). Seremos os mesmos? Raramente começo um post pelo título. Hoje fi-lo e escrevi ‘Dos que crescem’. Vou mudar. E haverá uma próxima… para os que cresceram e não vimos. Como nós. E só nos vamos dando conta às vezes.

19 comentários:
Também escrevi... e recebi.
Ainda tenho algumas guardadas. Sabe tão bem lê-las...
:))
Beijinho, Lúcia
Durante dois anos e meio fui acumulado as que recebia no dia de Santo Avião, que nesse dia acumulava as de cada dia da semana. Ai se o avião falava, era muito mas muito pior do que quando ficamos sem bateria ou sem rede em qualque lugar.
também sou do tempo em que se escreviam cartas de amor e de amizade em papel e à mão... ou, se não sou, fiz-me ser!
também as recebi e também as guardo nos envelopes de origem.
por vezes releio algumas delas e sabe-me bem fazê-lo...
ultimamente tenho-me dedicado a escrever cartas no blog.
um abraço
luísa
Linda e rica crónica sobre o nosso crescimento no esvair do tempo! Eu também sou desse tempo que já não há, do tempo dos bilhetinhos de amor, dados a intermediários que os entregavam à pessoa bem amada. O tempo não pára. É outro tempo em nós, que nos fomos esculpindo nele. O tempo, é uma convenção, o que existe é o eterno perpassando na nossa temporalidade efémera. Tudo muda em termos materiais, tecnológicos, só não muda a sede de amor que há nos nossos corações.Os nossos relacionamentos, se formos abertos como as águas nos rios eternos do tempo, são tal e qual o fenómeno da alquimia em que nos vamos transformando! Só os que vão nas mesmas águas, e ao mesmo ritmo de um relógio com ponteiros invisíveis, mas rodando em níveis vibratórios, que vão das pedras aos astros, é que se vão reconhecendo como inseparáveis nos caminhos por onde vamos caminhamdo. Viagem sem retorno, em que o passado é um conjunto de formas, de páginas, com ou sem selos, mas sem actualidade consistente a despeito de sentimentos ternos que são as nervuras da meória. Só o presente existe, sem tempo, e nele vivemos, se soubermos, e nele vemos tudo, até o que não existe, o passado, e o futuro, embora com exigências pragmáticas de planeamento com que exorcisamos o medo do vazio...Bela crónica, a tua, rapariga com nome de flor silvestre.
E quem não escreveu cartas de amor? agora é que já não se escreve... digo eu, que nada sei.
bjs
Gostei muito do relato. Não haja dúvida que a mão já não sabe pegar na caneta. E a letra? Essa vai fugindo do estilo de cada um, quanto mais as cartas de amor... essas voaram da caixinha dos segredos.
Também escrevi e recebi 'cartas de amor' em envelopes perfumados e com selos para colecção.
Não guardei nenhuma e tenho pena!
Deixo um beijinho,
Lucy
Maria
... e lembrar:) É bom!
Beijinhos
Salvo
Nem imagino essas palavras adiadas e a ansiedade crescente num cenário tão duro, em cada palavra seria, com certeza, mais do que água no deserto!
Luísa
As cartas vão permanecendo. Mas a falta da tinta no papel faz com que se perca aquele cheiro;)
Abraço
Eduardo
Bela reflexão a tua! Profundo, como sempre. Nem digo mais nada... señão estraga! Obrigado. mesmo!
Beijinhos
Violeta
Agora - teclam-se;)
Bjos
Lucília
'agora a mão já não sabe pegar na caneta'. É que, por vezes, tenho mesmo essa sensação!
E o perfume das cartas - acho que nucna desparece, pois não?;)
Beijinho
A propósito desta tua bonita prosa, ontem fui ao meu caderninho onde guardo as cartas em papel, umas escritas à mão, outras impressas.
Lá me veio a nostalgia, reler coisas que já nem me lembrava, já lá não ia há tanto tempo...
Sempre fui um bocadito tecnológico, de modo que o computador já era o meu meio favorito quando o comum era o papel, o papel tem no entanto uma característica poderosa que a electrónica não tem, o cheiro, o resto ou é igual, ou melhorou com a electrónica.
Continuo a escrever, felizmente, cartas de amor, se bem que agora de outras formas: SMSs de amor, MSNs de amor, Posts de amor, emails de amor. Os meios mudaram (e melhoraram na minha óptica), mas a essência é a mesma.
Que lindo texto, Lúcia!
...e que saudades de escrever e receber cartas de amor...
Nostálgico e belo, o teu post: quem não escreveu e recebeu cartas de amor perdeu uma das sensações plenas de vida.
E porque não fazê-lo ainda, de vez em quando?
Também escrevi e recebi. Nunca as rasgava, mesmo quando a namorada mudava. Guardo ainda algumas. De amor e também com manifestações de amizade. Provavelmente essas, nunca rasgarei. Porque a amizade fica e o amor esvai-se na areia das ampulhetas que controlam o tempo.
Alexandre
A essência é a mesma sim. Muda o cheiro... e a cor do papel!:)
AH! E quando a carta é em papel por CTT, dificilamente se trocam os destinatários.
Já com sm's...;)
Cristina:
:)) Obrigado!
Vá, destape a caneta e puxe uma folha:)))
Justine
É sempre tempo de fazê-lo. Haja emissor e receptor na mesma onda:)
Carlos
Se há coisa bonita, é uma grande amor que se pode transformar numa sincera amizade. É precioso! E terno.
7/9/09
Linda e ternurenta esta tua reflexão!
Também escrevi cartas de amor...e com quanta ansiedade esperava o eco desse amor!
Um dia destes escrevo uma carta de amor, dessas que vão num envelope com selo.
Beijo, Lucia
Também tenho cartas com selo internacional e tudo! E estão atadas com uma fita de cetim azul! Quer coisa mais romântica...e antiga? heheh
Boa noite e aproveita a brisa que já começa a ser fresca! O Outono a bater a porta! É hora de encomendar a lenha pra deixá-la secar bem!
Ausenda
Escreve e envia para aqui. Eu publico:) De certo vai ser de bom gosto.
Beijinho
Pitanga
Quem bom ver-te por aqui!
... pois, isso da fita de cetim está-me a falhar. Nem digo onde estão! Mas o importante é que eu sei situá-las.
...e se há coisa de que gosto, são destes frescos pré-outonais:)
beijinhos
Tenho um montão. ;)
Gi
E tão bom relê-las:)
Cartas de amor...um bonito sentir de quem escreve...um apaixonado ler de quem recebe.
Escrevi...algumas...rasguei algumas...guardei algumas...chorei algumas...ri de algumas...ainda hoje tenho vontade de escrever algumas...mas acabaram-se os selos...e o teclado "crasha"...
Excelente edição. Beijinho
Outono
Para os selos, há sempre uns tostõezitos no bolso – sim, nesses mesmos bolsos onde, por vezes encontramos aqueles pedacitos de coisas nenhuma que vamos guardando e nem sempre queremos tirar para fora.
Tira-os.
E o teclado verá os dedos dançarem…
E, logo tu, que escreves tão bem - sim, já fui lendo –
…ai… quando os selos acabam e a tinta ainda não secou mas parece que…
Pois gostava que escrevesses uma – pelo pouco que dizes no comentário, mas pelo muito que significa, tenho a certeza que seria uma rara carta de amor.
beijinho e noite feliz
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