
Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: "Fulano de tal comunica
a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio".
E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimônia, viríamos todos assistir
a despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio.
"Adeus! Adeus!"
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes...
(primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos... )
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo... tão leve... tão sutil... tão pòlen...
como aquela nuvem além (vêem?) — nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis...
José Gomes Ferreira
3 comentários:
Será dessa maneira que morrem os passarinhos? De vez em quando ouço a expressão: "olha, morreu que nem um passarinho..." e não parecem muito desoladas. Está visto, quando morrer dessa maneira ou então como um passarinho.
Abreijos.
Lúcia
estou com o salvoconduto...
A morte é sempre dolorosa porque não fomios educados para a aceitar e prém essa é aúnica certeza que temos ao nascer. Já perdi muitas pessoas, demasiadas... mas como acredito que a vida continua sei que nos voltaremos a encontrar. bjocas
Salvo
Se calhar é assim que os passarinhos morrem...quase como se nem dessem conta.
E não é muito mais digno, assim? POis... se pudéssemos...
Beijos
Violeta
Tens razão. Mas a morte é, também, dolorosa, porque nos aparta de pessoas que estão, d e alguma maneira, escritas na nossa pele.
Beijitos
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