Foto aqui'Estava à porta do Hiper um miúdo, coitadinho, a pedir, com frio. E eu e a minha cunhada demos-lhe 2 euros. Então ele não se vira para nós a dizer que lhe fôssemos comprar uns ténis, a dividir pelas duas, que tinha aqueles sapatos rotos?!'
E era verdade, que ele mostrou. Até tive pena. Mas depois pensei e disse-lhe: então estás aqui a pedir, num instante arranjas 10 euros e vais comprar uns ténis!
É sempre assim, damos a mão querem o braço. Ora já viu a lata do miúdo, D. M?!'
E eu, a ouvir, e aquilo nem era comigo, mas vá, lá fui dizendo - 'Vai ver queria o dinheiro para comer'. Burra, que às vezes não sei estar calada, é o que é. Lá veio a resposta, mais do que previsível para estas mentalidades: 'Então é pobre e ainda vai escolher o que pedir?!'
Paguei as compras e vim-me embora sem dizer mais nada porque não suporto este tipo de resposta nem de conversa. Não suporto mesmo esta mentalidade de superioridade de classe: dá-se a esmola e pobre SÓ tem que agradecer e nem direito tem a abrir o bico para mais nada, nem educadamente, como foi o caso. Porque pobre só tem uma necessidade de cada vez. Que escolha! E nem mais um pio!
E era verdade, que ele mostrou. Até tive pena. Mas depois pensei e disse-lhe: então estás aqui a pedir, num instante arranjas 10 euros e vais comprar uns ténis!
É sempre assim, damos a mão querem o braço. Ora já viu a lata do miúdo, D. M?!'
E eu, a ouvir, e aquilo nem era comigo, mas vá, lá fui dizendo - 'Vai ver queria o dinheiro para comer'. Burra, que às vezes não sei estar calada, é o que é. Lá veio a resposta, mais do que previsível para estas mentalidades: 'Então é pobre e ainda vai escolher o que pedir?!'
Paguei as compras e vim-me embora sem dizer mais nada porque não suporto este tipo de resposta nem de conversa. Não suporto mesmo esta mentalidade de superioridade de classe: dá-se a esmola e pobre SÓ tem que agradecer e nem direito tem a abrir o bico para mais nada, nem educadamente, como foi o caso. Porque pobre só tem uma necessidade de cada vez. Que escolha! E nem mais um pio!
Esta gente dá a moeda ao pobre como quem mete a moeda num daqueles boiões de bolas para crianças: neste caso espera-se que caia a bola; no outro espera-se que o pobre agradeça com reverência e se cale. 'Toma lá que assim até faço uma boa acção mas agora vai lá à tua vidinha'. Não dão a moeda pela pessoa que têm à frente (que nem vêem como pessoa), mas por si mesmas. Parece bem e sempre podem dizer que fizeram algo pelo semelhante. Ao abade, então, até se babam a contar...
Até percebo que não fossem comprar os ténis ao miúdo, que a vida anda cara para todos. O que me eriça é esta ideia do 'pobre e mal agradecido'. Porra, é pobre e ainda tem que ser contido e ter parcimónia nas escolhas?!
10 comentários:
São as más consciências, Lúcia...
Os miúdos são todos iguais, felizmente. E DEVIAM ter todos direito a tudo o que os miúdos precisam/querem...
Fico completamente encanitada com a caridadezinha... tantas vezes para tapar má-consciência...
Beijos
...é muito triste! Colocar condições para a caridade é terrível...
Excelente a mensagem do seu texto!
Beijos de luz...
Maria
Há uns anos atrás, era eu mais moçoila, aprendi uma grande lição: uma miúda abeirou-se de mim para vender pensos rápidos. Peguei em dinheiro, dei-lhe, mas recusei-lhe os pensos. Ela a insistir em dar-mos e eu, a pensar que estava uma fazer uma grande coisa, a recusar. Até que quem estava ao meu lado me fez sinal para aceitar os pensos e lá aceitei. Aí percebi que o meu acto não estava a ser altruísta (ficava a menina com o dinheiro e com os pensos e, assim, teria hipótese de os voltar a vender). Mas a menina estava ver o meu dinheiro como uma esmola, que ela não queria. Ela queria o meu dinheiro em troco do serviço que ela oferecia.
Nunca mais me esqueci nem da dignidade do acto dela, nem da minha atitude. E deu-me grandes lições, este episódio.
Podemos não dar o que eles mais querem, mas temos que os olhar como pessoas, que são.
Beijinhos
Mundo Azul
Colocar condições é olhar de cima para baixo. Uma baixaria, realmente.
Beijos
Ai, Lúcia,
muito bom post!
vc é óptima, escreve tão bem o que se deve por em causa, desinquietar e por a pensar a alma...
também já me cruzei com estórias parecidas!
um grande abraço e um :)
bom fim-de-semana
mariam
A caridade é uma invenção da parceria igreja/capitalismo. Os pobres são «necessários» para os que enriqueceram à custa deles mostrarem a sua «bondade» e irem para o céu...
Um beijo.
Teria tantas estorias para partilhar...
Só deixo aqui uma: uma garota pede dinheiro para comer e a pessoa diz ao empregado para a servir, mas como a escolha foi sobre um bolo , já não se pagou.
Há criaturas que fazem da caridadezinha um alto penacho para que quem as rodeia vejam como são boas...
Um abraço, linda.
é complicado comentar este "post", Lúcia...
porque à partida sou contra qualquer tipo de exigência de quem pede. as pessoas dão o que podem a mais não são obrigadas, sem necessidade de blá blá do lado de cá e de lá, ou de coitadinhos para aqui ou para ali, ou ainda de ordinários, para acoli.
faz-me lembrar uma brincadeira para uma reportagem, em que o jornalista não passava cavaco a ninguém, apenas tinha uma placa que dizia, «só aceito notas»... claro que não aceitou uma única...
bjs Lúcia
Não sei por quantos minutos eu agüentaria ficar no lugar dos pedintes. Sou de uma insegurança tal que me poria chorar ao primeiro não ou olhar atravessado. Por outro lado, já tirei da sacola onde levava, o pão que iria comer em minutos, ofereci-o ao pedinte e ele recusou. Só aceitava dinheiro.
Numa hora assim a indignação é inevitável. Também já vi pedirem comida e jogarem aquilo que tirei da mesa onde comia com meu filho e jogarem-na fora. Ora, pois! Se eu já comi muito do que nem sempre me agrada o paladar como alguém rico ou pobre joga do que tirei de minha mesa?
São situações difíceis, mas muito mais difícil é aceitar um julgamento igual para todos. Nem sempre a caridade é justa. A vida não é justa.Nem sempre todos recebem o que precisam. Não só os pedintes.
Esmola não ajuda ninguém.
Abração.
O que faz falta é avisar a malta. Quando conquistarmos uma sociedade verdadeiramente democrática acabarão os pedintes e os que se exibem (era para dizer masturbam) com a caridade.
Mariam
Obrigado pela simpatia que me deixou coradita:))
Beijinhos grandes e óptimo fim de semana.
Fernando Samuel
Ajudar o próximo deveria ser um acto que valesse apenas por isso mesmo. Mas há quem se redima com isso e com isso faça cada história e cada redenção dos pecados...
Beijinhos
São
O que relatas aqui é um conto típico: pobre tem de saber definir prioridade: se tem fome tem que beber leite e comer pão ou sopa. Se não sabe isto e escolhe um bolo, é porque não é pobre educado. Se for criança, então... ou seja, ainda lhes exigimos que sejam inteligentes e pensem que as gulodices são para sobremesa! É ridículo!
Beijinhos grandes.
Luís
Percebo o que dizes. Mas as coisas não são lineares. E, muitas vezes, exige-se a quem anda na rua a pedir que tenha capacidade de discernimento: quer na abordagem, quer em qualquer 'pedido extra'. Mas estas pessoas não tiveram as mesmas vivências, oportunidades e condições de educação das pessoas a quem pedem. E, muitas vezes, levantam defesas quando sentem que os estão a pisar. Esta criança de que fala o post, e a acreditar no relato de quem contou a história, foi educado. Bastava que se respondesse, também com educação, que não se tinha dinheiro para ir comprar uns ténis. Porque é que tem que se estabelecer que há sempre uma parte rude se a outra não cumpre as expectativas? Bem sei que é uma relação onde é difícil haver equilíbrios. Mas a sombranceria com que quem dá encara quem pede eriça-me. Isso mexe comigo, sim...E foi isso que me irritou nesta conversa.
Beijinhos e bom fim de semana
Clarice
Os exemplos que trouxe são bastante eluciaditivos. E concordo inteiramente quando diz que não há julgamento igual para todos. Também já passei por muitas dessas situações, como já passei por situações em que as minhas ofertas foram muito bem aceites. Arrisco a dizer que há pobres para todos os feitios. Tal como os que o não são. Importante mesmo, é baixar a crista quando estamos perante eles. E isso é um exercício difícl para algumas pessoas.
Beijinhos
Antuã
Não sei se os pobres algum dia acabarão - apesar da luta de muitos, o curso económico em curso não vai nesse sentido. Mas o que eu queria mesmo que acabasse era 'os que se exibem (era para dizer masturbam) com a caridade'. Tal e qual.
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