'Que la reseca muerte no me encuentre Vacío y solo sin haber hecho lo suficiente' León Gieco
quarta-feira, 16 de julho de 2008
Fantasmas do Antigo Regime
Pensei que seria fácil não voltar ao blogue. Não é. Definitivamente, cá estou. E não volto a dizer que não volto! Agora já sei que custa cumprir certas promessas!
E para falar desse grande José Gil que nos deu a felicidade de publicar “Portugal, Hoje, O Medo de Existir” (Ed. 2004 – Relógio D’Água), numa escrita longe dos discursos académicos que lhe eram típicos e que se recomenda vivamente.
Sobre a não-inscrição (cuja explicação está no livro e salto para dar um exemplo do qual se pode inferir a ideia de Gil sobre o conceito):
“O 25 de Abril recusou-se, de um modo completamente diferente, a inscrever no real os 48 anos de autoritarismo salazarista. Não houve julgamentos de Pides nem de responsáveis do antigo regime. Pelo contrário, um imenso perdão recobriu com um véu a realidade repressiva, castradora, humilhante de onde provínhamos. Como se a exaltação afirmativa da “Revolução” pudesse varrer, de uma penada, esse passado negro. Assim se obliterou das consciências e da vida a guerra colonial, as vexações, os crimes, a cultura do medo e da pequenez medíocre que o salazarismo engendrou. Mas não se constrói um “branco”(psíquico ou histórico), não se elimina o real e as forças que o produzem, sem que reapareçam aqui e ali, os mesmos ou outros estigmas que testemunham o que se quis apagar e que insiste em permanecer.
Quando o luto não vem inscrever no real a perda de um laço afectivo (de uma força), o morto e a morte virão assombrar os vivos sem descanso”.
21 comentários:
Voltaste? Mesmo?! Obrigado. Só tinha comentado aqui uma vez. Mas sou visita habitual.
Um abraço
Carlos,
Eu é que agradeço a simpatia.
Acho que eu não me tinha apercebido de que este blogue, embora muito pessoal, foi uma experiência que se tornou séria para mim.
Volta sempre,
Abraço
Concordo inteiramente com 0oJosé Gil e com o teu regresso-
Abraço.
Eduardo
Eduardo,
Obrigado:)
Quanto ao José Gil - só não digo que é indiscutível o que diz para não ser politicamente incorreta!
Beijinhos
Obrigada pela visita que me deu oportunidade de conhecer este teu lugar bonito e inteligente.
Um beijinho.
Politicamente incorrecta? É sagrado dizermos o que pensamos e sentimos.Quem gosta gosta. Quem não gosta, não gosta. Eu, que sempre lutei contra o Salazar, e ainda hoje sou contra o espírito salazarista,que ainda não morreu, discordei que tivessem tirado o nome dsele da ponte que hoje se chama de 25 de Abril. A razão? É óbvia. Ditador, sim, mas faz parte da História. É só um exemplo. O que é bonito é a gente dizer o que pensa e sente. ´´E, para mim, uma questão fisiológica.
Um beijo
"Quando o luto não vem inscrever no real a perda de um laço afectivo (de uma força), o morto e a morte virão assombrar os vivos sem descanso”.
Grande verdade, daí ser tão importante fazer lutos...
Ah! o fred já saiu do castigo...
Licínia Quitério
É um prazer revê-la por aqui.
Beijinhos
Eduardo Aleixo
O "politicamente incorrecta" era no sentido, apenas, de não ser levada como "intolerante" (ponho aspas e tudo, que isto é um conceito perigoso - tal como o de tolerante" é um palavra discutível).
Por princípio, tenho que quase todas as opiniões são discutíveis (as que batem nas liberdade dos outros e que defendem o seu esmagamento não são indiscutíveis - são criminosas). Só daí eu ter dito que o escrito do Gil era quase indiscutível. Porque, para mim, é-o. A justiça que falta, que nunca foi feita às vítimas do regime é mais que necessária. Pela justiça em si, mas também como forma apaziguadora; como luto que é necessário fazer-se. Pelas vítimas; pelo povo; pelo país. Uma das coisas que mais me ofendeu(e olha que eu sou filha do 25 de Abril - tinha apenas 2 anos e não tenho memória de viver em ditadura)foi o Rosa Casaco passear-se impunemente por Lisboa, enquanto dava uma magnífica entrevista ao Expresso. Foi uma ofensa ao país; às vítimas. A justiça impunha-se, como forma de o povo restabelecer laços com o sistema político, com a sua história. Não tenho dúvida.
Mas concordo que se tenha tirado o nome de Salazar à ponte. Salazar foi o responsável por atentados à digndade humana. Ele já está na História, infelizmente. Pelos piores motivos.
Mas concordo contigo no resto. E achei piada ao termo que é adequadíssimo sobre a nossa liberdade de expressão: "é uma questão fisiológica". Ora aí está.
Beijinhos
Jasmim:
Os lutos são sempre necessários para nos reequilibrarmos. Há lutos individuais e outros que o não são. São coletivos; ajudam-nos nas relações sociais; nas estruturas; dá-nos confiança. No sistema. Torna-nos participativos. Tenho para mim que o nunca se ter feito justiça sobre os carrascos do regime trouxe grandes males à alma da nação.
Beijinhos
P.S - Mas eu já o estou a ver outra vez, com aquele ar meigo, meigo, a cheira-te o saco das compras a ver quando volta a ter sorte:))))
Excelente texto a convidar a leitura do livro!
Há coisas que se entranham, até porque gostamos delas, das quais é difícil fugir, por isso volta sempre aqui ao teu cantinho, onde muitos te viremos também sempre visitar.
Lúcia: defendemos as mesmas ideias políticas em termos essenciais. Sobre o luto e os fantasmas...como sabes, é mais da Psicolgia do que da Ciência Política. Mas é um assunto importante. Daí defender que Salazar era menos fantasma com o seu nome na ponte do que a revolução tê-lo retirado, escondido, sepultado, como se tivesse medo dele. Em termos individuais acontece o mesmo: quando escondemos, reprimimos, recalcamos, não estamos a limpar nada. Tudo permanece. Em termos colectivos é igual.
Era só dizer-te o que penso sobre esta questão, que tem uma dimensão psicológica muito importante para as sociedades viverem de modo saudável.
Quanto ao resto, viva a liberdade e o desejo de uma sociedade mais justa.
Beijo.
Eduardo
Salvoconduto
Excelente livro - o que não admira sendo quem é o autor.
E obrigado pela generosidade das tuas palavras sobre o blogue. Espero que sim; que te sintas bem aqui. Como eu no teu cantinho.
Beijinhos
Eduardo Aleixo
"Daí defender que Salazar era menos fantasma com o seu nome na ponte do que a revolução tê-lo retirado, escondido, sepultado, como se tivesse medo dele" - Lá nisto tenho que concordar contigo. A forma como muitas coisas foram feitas escamoteou ao invés de resolver. O que trouxe os tais problemas na alma do povo. Isso com a falta de justiça criou uma sensação de que as coisas não ficaram resolvidas com o 25 de Abril. E pronto - íamos por aqui fora, não era?
Beijinhos
obrigada p'la divulgação... a ler.
boa semana
um sorriso :)
ah!obrigada pelo coment, sobre cuidados paliativos, já ouviu falar do H da dor no Fundão?! no triste cenário português, nesta área, ainda assim é um exemplo.
Este livro é um dos que mais me abanaram. Mesmo não concordando com muita coisa. E ainda bem! Beijo, Lúcia.
Mariam
Óptima leitura, sim. Sobre este nosso Portugal.
Quanto aos cuidados paliativos - sim - tenho conhecimento do H Fundão (vivi lá perto uns anos)e sei que esta Unidade tem crescido ao longo do tempo. Mas, acima de tudo, o necessário, é que haja pessoas, especialmente no Poder, mentalizadas para esta necessidade. Já vão havendo, mas não chega.É uma questão de dignidade da pessoa humana, como bem referes.
Beijinhos
Pedro
Eu não concordo com algumas análises dele. Só algumas. Mas compreendo-lhe os fundamentos. Mas o livro abana - porque nos espelha de uma forma filosófica - é uma abordagem interessantíssima.
Acima de tudo, aprende-se bastante, com este livro.
Beijos
Muito boa escolha a tua, em todos os sentidos.
E espero que fiques mesmo neste mundo internético!
Final de semana feliz.
São
Pelo menos não volto a dizer que acabou! Pela boca morre o peixe:))
Beijinhos
Lúcia, melhor não guardar fantasmas no armário. Mostra-os para nós.
Abraço.
Clarice,
Se lhe mostro os meus fantasmas assusta-se!:))
Mas aqui fala-se de outros fantasmas: desses de cara de grão de bico; tez branca e a falar ao longeee... com tom meio rouco, meio velho...
Obrigado pela visita.
Uma escolha excelente e um regresso plenamente justificado a avaliar pelos conteúdos do blogue e pelos comentáris dos que me antecederam.
Bjs
José Manuel
Obrigado pela simpatia. Se há coisa que este cantinho me trouxe foi gente de bem, inteligente e com humor. Só tenho a ganhar, de facto!:)
Abraço
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